Instituto Midia Étnica

Comunicação e Ação Afirmativa

Cooperação internacional e sociedade civil discutem mídia e relações raciais no Brasil (also avalible in english)

Encontro abordou cobertura da grande mídia à questão racial e crescimento do debate sobre políticas de igualdade racial na sociedade brasileira


A presença dos negros na mídia e o noticiário da questão racial no Brasil estiveram em discussão na última terça-feira (19/1), no Rio de Janeiro, em reunião organizada pela Fundação Ford. O encontro reuniu cerca de 30 pessoas, entre representantes do movimento negro jornalistas, pesquisadores, organizações de mídia e advocacy, governo brasileiro, agências de cooperação internacional e Nações Unidas.


Com mediação do jornalista Geraldinho Vieira, consultor da Fundação Ford e vice-presidente da ANDI (Agência de Notícias de Direitos da Infância), a discussão abordou a cobertura da grande mídia à temática da igualdade racial e a intensidade do debate público sobre as políticas públicas e de ação afirmativa voltadas aos afro-brasileiros.


Para a representante da Fundação Ford no Brasil, Ana Toni, a conjuntura apresenta a oportunidade de “investimentos em ações pedagógicas e mais próximas da mídia” em favor da temática etnicorracial a partir de projetos como observatórios e agências de notícias, produção de conhecimento e fortalecimento de projetos de mídia etnicorracial.


A reunião deu sequência a encontro realizado, em setembro de 2009, entre a cooperação internacional e o movimento negro.


No encontro, foram apresentadas três pesquisas sobre a cobertura da grande imprensa sobre a questão negra. Cida Bento, uma das coordenadoras do CEERT (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades), apresentou uma pesquisa com os principais jornais brasileiros e revistas semanais no período de 2001 a 2008. O estudo verificou prevalência do discurso anticotas e políticas de ações afirmativas, abordagem da problemática do racismo pelas equipes de reportagem durante a divulgação das pesquisas com recorte etnicorracial pelo IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas) e IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).


“Há concentração na divulgação das pesquisas e depois o temapraticamente some. Existe pouco proveito do tema em colunas, artigos e editoriais”, destacou Cida Bento.


Rachel Mello, diretora do Instituto de Pesquisa da FSB Comunicação, apresentou os resultados da sua dissertação de mestrado em Comunicação na Universidade de Brasília sobre a análise de discurso e editoriais do jornal O Globo sobre a questão negra.


A jornalista Carolina Trevisan, consultora da W.K. Kellogg Foundation, revelou a análise das coberturas da grande imprensa, em 2009, sobre o Estatuto da Igualdade Racial. Segundo ela, a marca mais presente é o desequilíbrio em desvantagem aos negros no que se refere às possibilidades de exposição de ideias, embora tenha observado coberturas que se diferenciaram. “A melhor cobertura da aprovação do Estatuto foi feita pelo jornal Correio Braziliense, sobretudo pelo espaço equilibrado que dedicou ao tema e por um artigo que se diferenciou de todos os outros, que contextualiza a criação do Estatuto e, portanto, dá ao leitor a dimensão real do que significa a sua aprovação”, ressaltou ela.


Mobilização social e mídia


A reunião destacou alguns momentos em que a agenda pela igualdade racial estará em evidência durante o ano, como as audiências públicas no STF (SupremoTribunal Federal) para apreciação daconstitucionalidade da reserva de vagas para negros nas universidades, a rodada do censo em que a autodeclaração etnicorracial estará no questionário base e a preparação das cidades brasileiras para os Jogos Olímpicos, como lembrou Rebecca Tavares,representante do UNIFEM Brasil e Cone Sul.


Para Sueli Carneiro, diretora de Geledés Instituto da Mulher Negra, “as ações devem ser articuladas com a dita mídia alternativa e encontrar caminhos coletivos de contra-discurso ao discurso hegemônico, que reconfigura a democracia racial no Brasil”. De acordo com Veet Vivarta, presidente da ANDI, a agência pode contribuir a partir de sua experiência, embora a questão racial apresente outros desafios.


Com atuação em mídia e advocacy, Jacira Melo, coordenadora da Agência de Notícias Patrícia Galvão, apontou a necessidade de avançar no Brasil a discussão sobre novo marco regulatório dos meios de comunicação e que os projetos de comunicação devem considerar a potencialidade da convergência digital. “Precisamos estar mais equipados e com melhores ferramentas para garantir o tema na mídia”, disse Jacira Melo. Novo marco regulatório e distribuição de recursos para diferentes grupos de mídia fora os pontos defendidos por Martvs das Chagas, subsecretário de Ações Afirmativas da Seppir.


Conhecimento: melhores produções


Entre os pesquisadores negros, a aposta é a produção de conhecimento para compreensão da relação mídia e racismo. Raquel de Souza, da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros, já apresentou projeto da ABPN para a realização de pesquisas sobre mídia e racismo e incentivou as parcerias. “Temos que fazer um esforço coletivo para ir além dos esforços isolados”, pontuou.


O professor universitário Júlio Tavares, da Universidade Federal Fluminense, citou o projeto A Cor da Cultura – série de documentários sobre a história dos afro-brasileiros produzidos pelo Canal Futura – como experiência bem-sucedida. Para o professor Fernando Conceição, da Universidade Federal da Bahia, a formação profissional do jornalista e o trabalho com a categoria são fatores importantes para melhorar a cobertura da temática negra na imprensa e o debate sobre racismo no Brasil. Representante da mídia negra, o Instituto de Mídia Étnica apresentou sua parceria com o jornal A Tarde, de Salvador, para formação de jornalistas negros e de disponibilizar o Instituto para o aperfeiçoamento de novos jornalistas, além do trabalho do Instituto junto às faculdades de Comunicação da Bahia.


A reunião teve as presenças da Cojira-Rio (Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial), Inesc (Instituto Nacional de Estudos Socioeconômicos), Geledés, CEERT, Andi, Instituto Patrícia Galvão, CEPIR-RJ (Coordenadoria Estadual de Promoção da Igualdade Racial do Rio de Janeiro), Fundação Ford,W.K. Kellog, Oxfam, Fundação Avina, Action Aid, IUPERJ (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro), UFRJ, UFBA, Instituto FSB Pesquisa, UNICEF e UNIFEM Brasil e Cone Sul.


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ENGLISH VERSION


The meeting dealt with media coverage of the racial issue and growing debate on racial equality policies in Brazilian society.


The presence of Afro-descendants in the media and news on the racial issue in Brazil were discussed at a meeting held on 19/1, in Rio de Janeiro, organized by the Ford Foundation.


The meeting gathered some 30 people, among which were representatives of the Afro-descendants movement, journalists, researchers, media and advocacy organizations, Seppir (Special Secretariat of Racial Equality Promotion Policies), international cooperation and United Nations agencies.


Geraldo Vieira was the mediator. He is a Ford Foundation consultant and vice president of Andi (Brazilian News Agency for Children's Rights), the discussion was on the coverage of media on the theme of racial equality and the intensity of the public debate on public policies and affirmative action focused on Afro-descendants. For the representative of Ford Foundation in Brazil, Ana Toni, the setting presents an opportunity to “make investments in pedagogic actions that are closer to the media” in favor of co-ethnic and co-racial theme through projects such as observatories and news agencies, production of knowledge and strengthening co-ethnic and co-racial media projects. The meeting was a follow-up to the meeting held in September 2009, among international cooperation and the Afro-descendants movement.


At the meeting, three research works on the coverage of the press on the Afro-descendants issue were presented. Cida Bento a coordinator of CEERT (Research Center on Labor Relations and Inequalities), presented research findings from the main Brazilian newspaper and weekly magazines in a survey carried out between 2001 and 2008. The results verified the prevalence of a discourse that was anti-quotas and affirmative action policies, in the approach of the racism issue used by the reporting teams during the dissemination of the surveys with a co-ethnic and co-racial profile carried out by IPEA (Institute of Applied Economic Research) and IBGE (Brazilian Institute of Geography and Statistics). “There was a focus on the issue during the dissemination of the surveys and afterwards it practically disappeared. The issue is rarely mentioned in columns, article and editorials”, Cida Bento highlighted.


Rachel Mello, director of the Research Institute of FSB Comunicação, presented the results of her master´s dissertation in Communication at the University of Brasilia on the analysis of the discourse on the theme of Afro-descendants in the editorials of the O Globo newspaper. The journalist Carolina Trevisan, a consultant of the W. K. Kellogg Foundation, revealed the analysis of the coverage of the media, in 2009, on the Racial Equality Statute. According to her, what stands out most is the imbalance that disfavors Afro-Brazilians regarding the possibilities of presenting ideas, although she noticed some outstanding coverages.


"The best coverage of the Chamber of Deputies' approval of the Statute was to be found in the Correio Braziliense newspaper, mainly for the balanced space given to the subject and because of an article that differed from all others. It put the whole issue in context, making the reader aware of what the approval meant", she remarked.


Social mobilization and media


The meeting highlighted some moments on the racial equality agenda that will stand out during the year, such as the public hearings at the STF (Supreme Federal Court) to appraise the constitutionality of reserving places for Afro-descendants at universities, the round of the census in which the co-ethnic and co-racial self-declaration will be in the base questionnaire and the preparation of Brazilian cities for the Olympic Games, as reminded by Rebecca Tavares, representative of UNIFEM Brazil and South Cone.


Sueli Carneiro, director of Geledés Instituto as Mulher Negra, said that “actions should be done through networking with the so-called alternative media and finding counter-discourse collective alternative paths to the hegemonic discourse, which reshape racial democracy in Brazil. According to Veet Vivarta, president of Andi, the agency could contribute through its experience, although the racial issue presents other challenges.


Jacira Melo, coordinator of the Patricia Galvaõ news agency, who works with media and advocacy, pointed out the need to advance the discussion in Brazil on a new ruling framework of communication means and that communications projects should take into account the power of digital convergence. “We need to have more equipment with better tools to guarantee the theme in the media”, said Jacira Melo. A new ruling framework and distribution of resources to different groups of media were the points defended by Martvs Chagas, under-secretary of Affirmative Action of Seppir.


Knowledge: better productions


Among Afro-descendant researchers, the bet is on the production of knowledge to understand the media and racism relationship. Raquel Souza, of the Brazilian Association of Afro-descendant Researchers, has already presented a project of ABPN to carry out research on the media and racism and backed partnerships. “We must make a joint effort to go beyond isolated efforts”, she pointed out.


The university professor, Julio Tavares, of the Universidade Federal Fluminense University, cited the A Cor da Cultura Project – a series of documentaries on the history of Afro-Brazilians produced by Canal Futura – as a
successful experience.


According to Professor Fernando Conceição, the Universidade Federal da Bahia, capacity building of journalists and work with the category are important factors to improve the coverage of the Afro-descendants theme in the press and the debate on racism in Brazil. The representative of Afro-descendants media, Institute of Ethnic Media presented its partnershipwith the A Tarde newspaper, of Salvador, to build capacity of Afro-descendant
journalists and offered the Institute to train new journalists, besides the work of the Institute with Communications faculties in Bahia.


The meeting was attended by Cojira-Rio (Committee of Journalists for Racial Equality), Inesc (National Institute of Socio-Economy), Geledés, CEERT, Andi, Patrícia Galvão Institute, CEPIR-RJ(State Coordination to Promote Racial Equlity of Rio de Janeiro), Ford Foundation, W.K. Kellog, Oxfam, Avina Foundation, Action Aid, IUPERJ (Institute of University Research of Rio de Janeiro), UFRJ, UFBA, FSB Research Institute, UNICEF and UNIFEM Brazil and South Conel.

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